Quem parecia não se importar com a chuva era o Elias, porque não lhe caía em cima! O Elias nunca pensava muito, nem a chuva lhe caía em cima muito, porque o Elias tinha dias, dias bons e dias maus. O Elias não existia, era apenas fruto da imaginação dos Inertes Ineficazes e Inadaptados do Comércio, grupo de pessoas imaginárias que viviam num barracão inexistente ao lado de uma pedra. Se imaginarmos uma pedra podemos ser o que quisermos. Há quem exista sem o saber e se o Elias se prendia por amor, de certeza que era amor verdadeiro, não um amor imaginário. Um dos pontos comuns entre ele e ele próprio era uma borbulha que lhe nascera de manhã, mas uma manhã qualquer em que se sentiu tão real que ia existindo. Quase se deu uma revolução na realidade espaço/tempo com essa atitude do Elias, o que vale é que começou a chover e o Elias não saiu cá para fora...
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Eu Somos Feliz Hoje! Parte-2
...Ricardo foi como passou a chamar-se, não se sentia como tal, mas sempre era alguma coisa e Ricardo nunca soube do Horácio que fora, muito por culpa de ser ignorante e outro tanto por ser inteligente demais, tão inteligente que tinha dores de cabeça ao entrar em casa, pois conseguia ter a percepção e descrição detalhada de todas as peças/partes/material constituinte da sua casa. Tudo lhe passava pela cabeça ao entrar em casa, tijolo, betão e constituição do mesmo, componentes eléctricos de cada electrodoméstico, quadro eléctrico, instalação da casa, etc... Ricardo era ignorante em matéria de amor, por este não ser concreto. Por vezes sentava-se e tentava pensar no amor que tinha por uma senhora jovem, que via todos os dias da sua janela (da qual ele sabia todos os constituintes orgânicos). Da jovem, nada sabia, apenas que lhe dava uma comichão no coração, um coração novo, que comprara em Barcelona. A jovem olhava-o com desejo e esse desejo aumentava de dia para dia, na razão inversa do tamanho da sua saia. Num dia em que já quase não tinha saia, Ricardo viu-a dirigir-se á sua porta, Ricardo sentiu a comichão do coração percorrer-lhe o corpo todo sem saber bem onde parar. Abriu a porta e o que se sentia entre os corpos, frente a frente, em tensão, sem palavras, era algo que rondava os 3000 volts, ela entrou e o quadro foi abaixo. Ricardo passou a detestar a jovem que lhe passava junto à janela, nutria-lhe um ódio que se chamava amor e mudou-se para João, a casa transformou-se em algo completamente verde e sem sentido, então logo após as primeiras chuvas do ano, João vestiu as calças e saiu em busca da perfeita estupidez. Não a encontrou logo ali, nem mais ao fundo, encontrou-a em si, escondida num recanto do cotovelo do braço direito, "que perfeita estupidez!" exclamou, voltando para casa, onde começou a escrever as memórias por ordem inversa, ou seja, a primeira linha correspondia ao minuto anterior, mas quando quis escrever o outro antes desse já estava no seguinte e desistiu, pegou fogo aos papéis, partiu as canetas e sentou-se à porta. Ao fim da tarde já era Aristides. Muito mais pacato, pai de família. Tinha uma mulher que não conhecia, com filhos que não eram dele, nem dela, nem de ninguém, nem sequer existiam, nem a mulher. Era tudo imaginação sua. Aristides desesperado, quis acabar com tudo e tornar-se Justino, contudo já o fora, passou então a Diogo, as dores passaram, mas as marcas ficaram para sempre. Cada vez que se olhava ao espelho via-se, o que não era mau de todo, as coisas que tinha era o que tinha, nem mais nem menos, o que sonhava ter era precisamente o que sonhava ter e aquilo por que lutava era aquilo por que lutava, mais satisfeito que isto não podia estar, só faltava uma coisa, que era aquela coisa que faltava e por não a ter tentou suicidar-se por 3 vezes, sem consumar o acto, por vontade própria, apenas para provar a si próprio que se quisesse o fazia. Diogo nunca mais quis acreditar em si e passou a ser Joaquim. Como Joaquim os tempos mudaram, chuveu consecutivamente durante 3 meses, tempo suficiente para se aperceber da sua estupidez interior, não havia assunto em que a sua opinião não fosse a mais estúpida, todas as noites se odiava e obrigava a si mesmo a comer caldo verde com chouriço, não morreu, mas a sua cabeça não ficou no melhor estado. Passou a Alfredo e a vida ficou um mar de rosas em que se ia afogando. Um dia num rasgo de génio, teve a percepção e compreensão necessária da vida para se manifestar sobre ela, encontrou o verdadeiro sentido e segredo da vida, quando o quis contar morreu, o Alfredo, o António, o Justino, a Carla, o Sebastião, o que for........
terça-feira, 8 de junho de 2010
Eu Somos Feliz Hoje! Parte-1
Parecia pouco provável que o Justino fosse capaz, do que quer que fosse, de absurdo e impossível, mas fê-lo na medida do impossível e provou-o categoricamente, defendendo, que por A+B as coisas eram tal e qual ele as tinha imaginado. Justino não vivia num mundo de imaginação, a imaginação dele é que vivia noutro mundo. Não vivia por viver, não sonhava por sonhar, não queria por querer, nem nascera por nascer, nascera para viver e sonhava por querer e ninguém se atrevia a negar-lhe isso. Dois dias após o fatídico acontecimento que mudou a sua vida, Justino tornou-se outro, era agora Sebastião. Muito parecido com o Justino, Sebastião sabia bem o que queria, não tinha nascido ontem, mas sim hoje e não ia ser por causa de certas coisas, que faria erradas coisas, como o poder dizer, que tudo poderia estar bem se se mudasse uma ou outra coisa. Mudar uma ou duas coisas estaria certo, mudar uma ou outra, não, porque se outra for uma não vamos mudar uma ou uma coisa. Sebastião sorria ao pensar nisso e pensava nos belos momentos que passaria, se por qualquer motivo mudasse de nome. Sebastião passou a Carlos e mudou por completo, já não se regia por ideias, regia-se por régia ordenança e aí entrou a dança, Carlos passou a Carla, que se tornou Manuela, que se tornou Paulo, que se tornou Pedro. O Pedro tinha vontade demais, ao menos isso era algo que se via e quando se preparava para afirmar perante o mundo, sofreu um enfarte na perna direita, que lhe apanhou a fala, logo no início e em seguida lhe apanhou o coração, sem fala e sem coração, Pedro não era nada, desceu do palanque, entregou o discurso a outro e partiu ao encontro da alma gémea, que encontrou logo ali, numa flor. Foi nessa altura que outro enfarte lhe apanhou o corpo todo, em 3 partes distintas, uma, duas e a outra, o que não foi mau, porque mudando uma ou outra sempre se melhora. Pedro, sem querer ser chato, tornou-se chato e mudou para José, onde se manteve até à independência. Essa independência durou 4 anos, até ser ocupado por um ditador de nome, António. António gostava de escrever horóscopos à boa maneira balzaquiana e detestava torradeiras, não via qualquer inconveniente em comer cenouras e polia as canetas com que escrevia, sempre que possível. A ditadura nunca dura e António deu um salto que lhe torceu um pé, o que lhe valeu o nome de Horácio. Como Horácio, pediu uma intervenção rápida das forças da autoridade médica-cirúrgica para lhe retirarem um António que começava a alastrar novamente por todo o corpo. Ao fazê-lo, a Alta Autoridade para a Concorrência e Disciplina Essencial para Qualquer Membro Afectado por um António, amputou-lhe a percepção do amarelo. Horácio, graficamente falando era uma tricromia, até ao dia em que engoliu, sem querer, um frasco de perfume barato, que lhe devolveu a percepção do amarelo, mas que lhe tirou a percepção de si mesmo, portanto, Horácio deixou de ser, Horácio não era....
quinta-feira, 15 de abril de 2010
6 VERTICAL
Não compreendia muito bem que diferença fazia ela despir-se no quarto ou na casa de banho, compreendia sim, a diferença que fazia ela despir-se ou não. Procurei desesperadamente por respostas que não me foram dadas, seria assim tão difícil responder que discursar com 4 letras é orar? Ela despiu-se na mesma, eu fiquei com as palavras cruzadas no 5 vertical, voltei ao 2 horizontal e perguntei-lhe: "símbolo químico do ouro?", ela olhou-me como se eu fosse mandar um salto, subiu para a cama puxou-me de cima do guarda-fatos, despiu-me, eu espirrei "Pronto já está!!! deixaste a janela aberta não foi?", fui fazer um chá e ainda acabei de fazer as palavras cruzadas, quando cheguei á cama ela já dormia, que pena, pensei, até fazia amor com ela.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
O nosso Natal
Era uma vez uma formiga que não acreditava no Pai Natal, mas também pouco importava ao Pai Natal já que a sua idade avançada e os problemas de vista, inerentes á mesma, não lhe permitiam ver a formiga.....voltemos ao início....Era uma vez um Pai Natal que não acreditava no Pai Natal, ou seja, nele próprio, longe iam os tempos em que distribuía presentes com um sorriso na cara e sentia dentro dele uma alegria enorme. Acordava no dia 24 de Dezembro ás 7 da manhã, lavava a cara, comia uma torradinha e bebia um leitinho quente, pegava no trenó e, entrando num lapso temporal do espaço/tempo, distribuía por todo o mundo presentes que saíam de um saco que parecia não ter fundo, uma daquelas coisas sem explicação, mas a mais pura verdade e tudo numa noite, não me perguntem como senão eu dou uma explicação parva.
Corria o início do século XXI, aí por volta de Fevereiro, quando o Pai Natal entrou numa crise de nervos que lhe causou ataques de pânico, dia sim, dia não, isto porquê? Porque o Natal se estava a tornar cada vez mais digital. Se antigamente o Pai Natal construía brinquedos de madeira, de papel e de pano, agora a coisa era diferente, cabos eléctricos, fibra óptica, circuitos electrónicos, ecrãs tácteis, coisas que lhe custavam muito a fazer e demoravam tanto tempo que começou a reduzir nos brinquedos de madeira, papel e pano. Então os meninos que só podiam receber esses brinquedos começaram a ficar sem presentes no Natal. Como as crianças digitais (como lhes chamava o Pai Natal) eram muito exigentes e os pais pouco pacientes, o Pai Natal todos os anos melhorava os presentes digitais com “upgrades” e “upgrades, porque as crianças digitais queriam todos os anos um presente igual mas com “upgrade”. Enquanto isso, as crianças analógicas, por falta de presentes no Natal faziam os seus próprios presentes, ouviam histórias que os pais contavam na noite de Natal e divertiam-se todos.
De “upgrade” em “upgrade” as crianças digitais iam ficando cada vez mais coladas á televisão e ao computador, na noite de Natal.
Uma noite após a entrega de presentes, o Pai Natal estacionou o trenó, arrumou as renas, entrou em casa, descalçou as botas, bebeu um xiripiti de aguardente velha para aquecer o corpo e sentou-se á lareira, onde adormeceu em poucos minutos, só acordou com um ruído muito leve do seu lado direito, quando olhou era o fantasma do perú de Natal, que o olhou e disse, “VEM COMIGO” e levou-o a ver como era o Natal das crianças analógicas. O Pai Natal gostou do que viu e lembrou-se dos velhos tempos, fê-lo sentir-se bem. Quando voltou para casa e se sentou novamente á lareira apareceu-lhe o fantasma do bacalhau de Natal, que o levou a ver o Natal das crianças digitais, o Pai Natal ficou estarrecido, como é que algo que ele produzira com amor, isolava tanto as pessoas e desunia a família no Natal. Sentado novamente á lareira, o Pai Natal, desiludido com o rumo do Natal que ele representava, bebeu mais uma aguardente velha e deprimiu, começou a não acreditar nele próprio, passou o ano todo assim e quando o Natal estava novamente a chegar, o Pai Natal num acesso de raiva pegou em todos os presentes digitais, circuitos, cabos eléctricos, fibra óptica e o diabo a sete e lanço-os todos num poço fundo e nesse Natal voltou a fazer prendas em madeira, papel e pano, com mais amor ainda.
Agora todos os anos o Pai Natal tenta desfazer o erro que cometeu e oferece a todos os meninos os presentes mais simples que recebemos no Natal, porque o fantasma do capitalismo presente pegou em tudo o que o Pai Natal lançara para o poço fundo, colocou-lhe um preço, embrulhou tudo com papéis bonitos e vendeu. As pessoas pensando que o Natal é digital continuam na busca desenfreada dos “upgrades”, mas o Natal é dos simples, um beijo, um abraço, um sorriso não precisam de comando nem de downloads, muito menos de um cartão de memória, esse já nós temos e analógico, onde guardamos os bons momentos de um Natal em família.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Manual de pesca subterrânea
Pouco passava das 10 mas já se ouvia o cantar dos melros, Tinoco saiu á rua preparadinho, de caçadeira na mão, virou-se para o céu, cuspiu, calculou a deslocação do vento e enfiou um cartucho de rosas, que disparou. Quando olhou para baixo tinha os pés cheios de lama. "Foda-se" - exclamou e foi para dentro lavar os pés.
O faquir Akim
Já passara o autocarro das 7:30, o das 8:30 e neste preciso momento passava o das 9:30. Akim sentiu nas unhas dos pés uma comichão enorme, baixou-se para coçar e nesse mesmo instante explodiram duas andorinhas, não num beiral, mas por cima das costas de Akim, a partir daí o médico proibiu-o de comer favas e Akim perdeu o seu ganha-pão, deitar-se em camas, não de pregos, mas de couratos na brasa e de minis. Agora Akim já não engole facas mas sim tremoços. E não são poucos!
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