...Ricardo foi como passou a chamar-se, não se sentia como tal, mas sempre era alguma coisa e Ricardo nunca soube do Horácio que fora, muito por culpa de ser ignorante e outro tanto por ser inteligente demais, tão inteligente que tinha dores de cabeça ao entrar em casa, pois conseguia ter a percepção e descrição detalhada de todas as peças/partes/material constituinte da sua casa. Tudo lhe passava pela cabeça ao entrar em casa, tijolo, betão e constituição do mesmo, componentes eléctricos de cada electrodoméstico, quadro eléctrico, instalação da casa, etc... Ricardo era ignorante em matéria de amor, por este não ser concreto. Por vezes sentava-se e tentava pensar no amor que tinha por uma senhora jovem, que via todos os dias da sua janela (da qual ele sabia todos os constituintes orgânicos). Da jovem, nada sabia, apenas que lhe dava uma comichão no coração, um coração novo, que comprara em Barcelona. A jovem olhava-o com desejo e esse desejo aumentava de dia para dia, na razão inversa do tamanho da sua saia. Num dia em que já quase não tinha saia, Ricardo viu-a dirigir-se á sua porta, Ricardo sentiu a comichão do coração percorrer-lhe o corpo todo sem saber bem onde parar. Abriu a porta e o que se sentia entre os corpos, frente a frente, em tensão, sem palavras, era algo que rondava os 3000 volts, ela entrou e o quadro foi abaixo. Ricardo passou a detestar a jovem que lhe passava junto à janela, nutria-lhe um ódio que se chamava amor e mudou-se para João, a casa transformou-se em algo completamente verde e sem sentido, então logo após as primeiras chuvas do ano, João vestiu as calças e saiu em busca da perfeita estupidez. Não a encontrou logo ali, nem mais ao fundo, encontrou-a em si, escondida num recanto do cotovelo do braço direito, "que perfeita estupidez!" exclamou, voltando para casa, onde começou a escrever as memórias por ordem inversa, ou seja, a primeira linha correspondia ao minuto anterior, mas quando quis escrever o outro antes desse já estava no seguinte e desistiu, pegou fogo aos papéis, partiu as canetas e sentou-se à porta. Ao fim da tarde já era Aristides. Muito mais pacato, pai de família. Tinha uma mulher que não conhecia, com filhos que não eram dele, nem dela, nem de ninguém, nem sequer existiam, nem a mulher. Era tudo imaginação sua. Aristides desesperado, quis acabar com tudo e tornar-se Justino, contudo já o fora, passou então a Diogo, as dores passaram, mas as marcas ficaram para sempre. Cada vez que se olhava ao espelho via-se, o que não era mau de todo, as coisas que tinha era o que tinha, nem mais nem menos, o que sonhava ter era precisamente o que sonhava ter e aquilo por que lutava era aquilo por que lutava, mais satisfeito que isto não podia estar, só faltava uma coisa, que era aquela coisa que faltava e por não a ter tentou suicidar-se por 3 vezes, sem consumar o acto, por vontade própria, apenas para provar a si próprio que se quisesse o fazia. Diogo nunca mais quis acreditar em si e passou a ser Joaquim. Como Joaquim os tempos mudaram, chuveu consecutivamente durante 3 meses, tempo suficiente para se aperceber da sua estupidez interior, não havia assunto em que a sua opinião não fosse a mais estúpida, todas as noites se odiava e obrigava a si mesmo a comer caldo verde com chouriço, não morreu, mas a sua cabeça não ficou no melhor estado. Passou a Alfredo e a vida ficou um mar de rosas em que se ia afogando. Um dia num rasgo de génio, teve a percepção e compreensão necessária da vida para se manifestar sobre ela, encontrou o verdadeiro sentido e segredo da vida, quando o quis contar morreu, o Alfredo, o António, o Justino, a Carla, o Sebastião, o que for........
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