O Saraiva era um soldado com um nível cultural acima da média, sendo que a média a nível da soldadesca era medida muito abaixo da média dos não soldados, mas dois dedos acima das pessoas analfabetas. Com o nível de cultura do Saraiva, já se conseguia perceber se o livro que tinha nas mãos estava ou não de pernas para o ar e o Saraiva sabia muito bem o que era um livro, já vira um em casa de uma tia que morava em Fátima e sabia muito bem que ler fazia mal à vista.
Problemas nos olhos era coisa que o Saraiva não queria, pois sonhava ser sniper, como nos filmes americanos, onde daqueles canos saíam balas certeiras. Até agora as balas do Saraiva só tinham atingido a paciência dos seus graduados que, fartos da sua persistência, o tinham colocado a atirar ás moscas que rodeavam o rancho à hora do almoço. Saraiva acordou um dia com vontade de subir o seu nível cultural uma série de degraus. Estudou, fez exames, leu livros, viu documentários da National Geographic, sem nunca deixar de praticar o sniperismo.
Com o curso feito, licenciatura, mestrado, doutoramento e ainda uma pós-graduação em Arqueologia, lá desenterrou a vocação que estava enterrada no seu peito.
Na primeira guerra a sério para que foi recrutado levou a espingarda e dois livros, uma caneta e um Moleskine.
Antes da primeira missão, leu Saramago, António Damásio e escreveu uma tese sobre como escrever teses sem se saber o que é uma tese.
Quando acabou de montar a espingarda e preparava com delicadeza o local da missão, com mantas de linho próprias para snipers e camuflagem à base penas de pavão, levou um tiro na cabeça, que o deixou logo ali imóvel, com o ar de quem se lembrou à última da hora que lhe faltou colocar uma vírgula na introdução da tese.
O Misterioso Senhor Coiso