Era uma vez uma formiga que não acreditava no Pai Natal, mas também pouco importava ao Pai Natal já que a sua idade avançada e os problemas de vista, inerentes á mesma, não lhe permitiam ver a formiga.....voltemos ao início....Era uma vez um Pai Natal que não acreditava no Pai Natal, ou seja, nele próprio, longe iam os tempos em que distribuía presentes com um sorriso na cara e sentia dentro dele uma alegria enorme. Acordava no dia 24 de Dezembro ás 7 da manhã, lavava a cara, comia uma torradinha e bebia um leitinho quente, pegava no trenó e, entrando num lapso temporal do espaço/tempo, distribuía por todo o mundo presentes que saíam de um saco que parecia não ter fundo, uma daquelas coisas sem explicação, mas a mais pura verdade e tudo numa noite, não me perguntem como senão eu dou uma explicação parva.
Corria o início do século XXI, aí por volta de Fevereiro, quando o Pai Natal entrou numa crise de nervos que lhe causou ataques de pânico, dia sim, dia não, isto porquê? Porque o Natal se estava a tornar cada vez mais digital. Se antigamente o Pai Natal construía brinquedos de madeira, de papel e de pano, agora a coisa era diferente, cabos eléctricos, fibra óptica, circuitos electrónicos, ecrãs tácteis, coisas que lhe custavam muito a fazer e demoravam tanto tempo que começou a reduzir nos brinquedos de madeira, papel e pano. Então os meninos que só podiam receber esses brinquedos começaram a ficar sem presentes no Natal. Como as crianças digitais (como lhes chamava o Pai Natal) eram muito exigentes e os pais pouco pacientes, o Pai Natal todos os anos melhorava os presentes digitais com “upgrades” e “upgrades, porque as crianças digitais queriam todos os anos um presente igual mas com “upgrade”. Enquanto isso, as crianças analógicas, por falta de presentes no Natal faziam os seus próprios presentes, ouviam histórias que os pais contavam na noite de Natal e divertiam-se todos.
De “upgrade” em “upgrade” as crianças digitais iam ficando cada vez mais coladas á televisão e ao computador, na noite de Natal.
Uma noite após a entrega de presentes, o Pai Natal estacionou o trenó, arrumou as renas, entrou em casa, descalçou as botas, bebeu um xiripiti de aguardente velha para aquecer o corpo e sentou-se á lareira, onde adormeceu em poucos minutos, só acordou com um ruído muito leve do seu lado direito, quando olhou era o fantasma do perú de Natal, que o olhou e disse, “VEM COMIGO” e levou-o a ver como era o Natal das crianças analógicas. O Pai Natal gostou do que viu e lembrou-se dos velhos tempos, fê-lo sentir-se bem. Quando voltou para casa e se sentou novamente á lareira apareceu-lhe o fantasma do bacalhau de Natal, que o levou a ver o Natal das crianças digitais, o Pai Natal ficou estarrecido, como é que algo que ele produzira com amor, isolava tanto as pessoas e desunia a família no Natal. Sentado novamente á lareira, o Pai Natal, desiludido com o rumo do Natal que ele representava, bebeu mais uma aguardente velha e deprimiu, começou a não acreditar nele próprio, passou o ano todo assim e quando o Natal estava novamente a chegar, o Pai Natal num acesso de raiva pegou em todos os presentes digitais, circuitos, cabos eléctricos, fibra óptica e o diabo a sete e lanço-os todos num poço fundo e nesse Natal voltou a fazer prendas em madeira, papel e pano, com mais amor ainda.
Agora todos os anos o Pai Natal tenta desfazer o erro que cometeu e oferece a todos os meninos os presentes mais simples que recebemos no Natal, porque o fantasma do capitalismo presente pegou em tudo o que o Pai Natal lançara para o poço fundo, colocou-lhe um preço, embrulhou tudo com papéis bonitos e vendeu. As pessoas pensando que o Natal é digital continuam na busca desenfreada dos “upgrades”, mas o Natal é dos simples, um beijo, um abraço, um sorriso não precisam de comando nem de downloads, muito menos de um cartão de memória, esse já nós temos e analógico, onde guardamos os bons momentos de um Natal em família.