segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A REVOLTA


O Silva não via bem do olho direito, nem do olho esquerdo. Tinha a perna direita maior que a esquerda e a esquerda do mesmo tamanho da direita. Visto do lado direito, o nariz do Silva era pontiagudo, visto do lado esquerdo era arredondado. O braço direito era do mesmo tamanho do esquerdo mas um bocado mais pequeno. A mão direita saía-lhe do braço esquerdo para quem o via de frente e a esquerda saía também do braço esquerdo para quem se punha no lugar do Silva. O pé direito ia sempre á frente e o pé esquerdo também, só alternavam quando andava. Os dedos da mão direita podiam ser da esquerda porque eram iguais em  número e na forma, só a disposição variava. O Silva nunca andaria de carro, porque os carros só andam a direito, não andam a esquerdo. O Silva quando pensava, tentava pensar com o lado esquerdo do cérebro deixando o lado direito para as situações difíceis.
Um dia o Silva saiu para comprar bananas, andou, andou, andou, andou e quando chegou á loja comprou um par de meias e um pacote de amendoins e nunca mais foi visto.
A verdade verdadinha é esta, o Silva sofria de "si mesmismo". Quando tinha a noção que, o que ele era era ele, ficava aborrecido e esticava os braços. Naquele dia esticou a cabeça e por coincidência numa linha de comboio. A parte direita que sobrou do Silva era ligeiramente mais pequena que a esquerda e a direita era mais arredondada, mas isso já pouco lhe interessava.
O Silva acabou por deixar neste mundo um espaço vazio que ninguém se atreve a ocupar porque, do lado direito é grande e do lado esquerdo é igual mas muito maior. 

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