Parecia, realmente, que a vontade era pouca, mas uma dor nas pernas era coisa que não vinha nada a calhar. Tenório calafetou as janelas e subiu para cima de um banco, lá em cima tocava as estrelas e até se sentia bem, mas a puta da velha que lhe alugou o quarto tirou-lhe o banco e um dos dentes do Tenório ficou cravado no soalho. A velha aflita cresceu dois centimetros e mandou um pontapé na cabeça do Tenório, que entre dentes, cravados e descravados no chão, disse:
- Este mês não lhe pago o aluguer!
A velha afinou, cresceu mais dois centimetros, cuspiu no chão e deu-lhe com o banco na cabeça. Se o Tenório já tinha um dente cravado no chão, passou a ter dois, mas aquilo enervou-o de tal modo que ele encheu o peito de ar, descravou os dentes do chão, pôs-se de pé num salto, agarrou na velha e disse-lhe cara a cara:
- Cento e vinte e quatro!
A velha com receio encolheu e reduziu-se á sua insignificância, que era mais ou menos qualquer coisa de absurdo e cheia de medo correu porta fora sendo atropelada de imediato, facto que contribuiu decisivamente para a sua morte, se bem que os caramelos que andava a comer não eram dos melhores. Tenório nunca mais foi o mesmo, cresceu-lhe uma árvore num pé e entre a sétima e a oitava costela passou a ter um ninho de andorinha.
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